Viver no exterior | Foto por Mariana Alves (em Hamburgo)
Viver no exterior | Foto por Mariana Alves (em Hamburgo)
Mariana Alves, uma brasileira que vive em Hamburgo, fala sobre suas experiências internacionais e a realidade que ninguém conta sobre morar no exterior.

Por: Mariana Alves, do bab.la

Para muitos, morar no exterior é um sonho, mas infelizmente nem tudo são flores. A falta de intimidade com o idioma, as diferenças culturais, o orçamento e até mesmo a idade podem gerar problemas. Já parou para pensar nisso?

Fator idade

Assim que me formei no ensino médio aos 17 anos, resolvi que era hora de mudar aquela vida monótona e tentar algo completamente fora da minha zona de conforto. Diferente de muitos dos meus colegas, meu sonho não era morar nos Estados Unidos, mas sim no Japão. Comecei a me dedicar aos estudos da língua japonesa aos 14 anos e aos 17 já era fluente. Mas toda essa bagagem linguística e cultural não adiantou muito, porque não fui parar nem nos EUA nem no Japão, mas sim na Rússia.

Consegui uma bolsa para estudar música no Instituto Estadual de Cultura de Moscou. E, apesar de não saber falar nada em russo, arrumei as malas e parti. Supreendentemente, além do choque cultural, o que mais me chamou a atenção ao chegar na Rússia, foi o som do idioma que chegava a machucar meus ouvidos. Após um ano morando em Moscou, posso afirmar categoricamente que aquele foi um dos anos mais complicados da minha vida.

Estou contando esta experiência porque acho que o fator idade influencia muito o tipo de experiência que podemos ter no exterior. Com 17 anos, a maioria das pessoas ainda não saiu de casa e não teve que enfrentar os desafios de morar sozinho. Ter essa primeira experiência de contar apenas consigo mesmo num país estrangeiro, pode ser um tremendo fardo. Acho que nessa idade não temos a resiliência necessária para lidar com todos os problemas que estão ligados à experiência de viver fora do Brasil.

Olhando para a minha própria história, acho que o mais recomendável para adolescentes são os programas de intercâmbio de idiomas de curto prazo. Com uma supervisão competente e disponível, para auxiliar o intercambista quando necessário.

Diferenças culturais

Leva um tempo até você se acostumar com as diferenças do local onde está morando. Atualmente moro na Alemanha e o meu primeiro ano aqui foi um pouco conturbado. Senti que havia uma parede que me separava dos alemães. Tenho certeza que em Berlim ou até mesmo no sul da Alemanha isso possa ser diferente. Mas aqui no norte, as pessoas são bem reservadas. Demorei um tempo até conseguir me integrar à cultura e fazer amigos alemães. Conheço pessoas que moram aqui há anos e que nunca se sentiram parte da cultura, seja porque não quiseram aprender a língua ou porque simplesmente não se identificaram com o modo de vida alemão.

Justamente porque eu queria muito falar alemão fluente, acabei me distanciando da comunidade brasileira, o que me fez solitária no primeiro ano. Mas meus esforços deram resultado e hoje posso dizer que tenho amigos alemães maravilhosos. Eles são poucos, mas a amizade é verdadeira. Tenho um amigo que mora há duas horas de Hamburgo e vem pra cá só para tomar uma cerveja comigo ou me ajudar a levar compras do IKEA para casa.

Penso que vale a pena dedicar-se a conhecer a cultura do país no qual você está chegando e seus costumes. Você se torna mais tolerante, passa a aceitar diferentes comportamentos. Torna-se amigo de pessoas com quem talvez nunca falasse se estivesse no Brasil.

Dupla identidade cultural

Quando paro para pensar em alguns aspectos da minha nova vida, tenho a sensação que meu “eu” se encontra no meio de duas culturas. É como se eu não fosse nem brasileira, nem alemã. Minha personalidade absorveu diversos aspectos da cultura alemã e os misturou com minha brasilidade. Chega a ser até engraçado quando volto ao Brasil, porque não sei mais atravessar uma rua, nem falar alto em restaurantes e transportes públicos. E o pior, fico brava com quem fala. Ao mesmo tempo, reclamo de diversos aspectos da cultura alemã que nunca vão fazer parte de mim.

Conheço várias pessoas na mesma situação e acho que é complicado encontrar um equilíbrio. Não sei se um dia esse sentimento de estar entre culturas vai desaparecer, mas se acontecer, volto para contar!

Lute pelos seus sonhos

Clichês são clichês porque há um fundo de verdade neles. Depois de sair da zona de conforto, é possível ver um mundo totalmente novo. Você supera desafios e começa a acreditar mais em si mesmo. Descobre que é capaz de aprender um novo idioma, recomeçar do zero, aceitar novas culturas, criar sua identidade e lugar no mundo. E isso ninguém pode tirar de você! Não importa para onde vá, essa identidade global vai te acompanhar para sempre, mesmo que retorne para sua pátria. E essa queridos leitores, é a melhor bagagem.

Sobre a autora: Mariana Alves é formada em música pela UNICAMP e entusiasta de idiomas. Já morou em diversos países e aprendeu diferentes idiomas. Hoje vive na Alemanha, onde trabalha com tradução, marketing e mídias sociais.

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2 COMENTÁRIOS

  1. Acho super interessante ver as diferenças culturais de cada país, poder ter a oportunidade de conhecer um pouquinho de cada canto é uma experiência enriquecedora e também gratificante , mas sei que se incluir numa cultura muito diferente da nossa é no começo assustador e leva bastante tempo pra se adequar, mas é algo que vale super a pena! Espero poder ter essa oportunidade de morar num lugar diferente do Brasil, nem que seja por uns meses.
    Um abç

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