Autoconhecimento e estudar no exterior | Foto: Pxhere, CCO license
Autoconhecimento e estudar no exterior | Foto: Pxhere, CCO license
Autoconhecimento é necessário para viver plenamente os desafios de uma experiência internacional. Já parou para pensar nisso?

Você acaba de chegar em uma cidade onde nunca esteve antes. Tudo é novo e você perdeu as referências. Sua família não está ali e ainda não tem amigos. Para dificultar um pouco mais a situação, sua comunicação ainda não é fluente, porque não domina o idioma local.

Se você é uma pessoa que se conhece bem, estes desafios podem ser facilmente encarados. Estará seguro, confiante das suas escolhas e da decisão de interromper a vida que tinha para dar lugar ao novo. Mas se por algum motivo esse não é o seu caso, a experiência de chegar a um lugar desconhecido pode ser bastante inquietante.

Autoconhecimento é o conhecimento que o indivíduo tem de si mesmo. É saber quais são suas principais características, seus prontos fortes e fracos. É conhecer seus desejos, suas limitações e sua capacidade de superação.

Sim, o assunto é delicado, mas altamente necessário.

É que a experiência internacional, tão desejada por todos, pode ser mais difícil para algumas pessoas. Se você não estiver atento e “antenado” em quem você é, o que quer para si e o que precisará fazer para realizar isso, seu sonho pode se transformar em um pesadelo.

Ana Paula é de Natal. Queria estudar fora porque todos os seus amigos estavam fazendo isso. Escolheu um intercâmbio de seis meses em Londres, sem pensar em suas características pessoais. Quando chegou lá se assustou com a cidade. Um mês depois me escreveu um e-mail pedindo ajuda. “Todo mundo fala que Londres é incrível, mas não estou gostando daqui. Faz muito frio, o céu está sempre cinza e eu não falo com ninguém há dias. Estou muito ansiosa, triste e decepcionada. Quero voltar para o Brasil”.

Antonio é de Curitiba e foi aceito para um mestrado em Los Angeles. Também não avaliou como seu perfil pessoal era importante no processo e fez tudo por conta própria, sem pedir ajuda a ninguém. Passados alguns meses, entrou em contato. Estava triste, se sentia isolado. “Los Angeles é muito grande, tudo é difícil aqui. Não tenho carro e o transporte público não funciona bem, não consigo ir aos lugares. Me sinto preso. Além disso, as pessoas não conversam, está difícil fazer amigos, mesmo no meu curso. O que devo fazer?”.

Estas são apenas duas de várias histórias que conheço de pessoas que saíram do Brasil sem se preparar adequadamente. Não conversaram com ninguém, não levaram em conta seu perfil, não estudaram cuidadosamente seus destinos, instituições de ensino e cultura local. Suas jornadas foram interrompidas cedo, porque as experiências iniciais não foram nada boas. As queixas eram legítimas e as dificuldades muito claras. Ambos foram para lugares errados, em um momento de suas vidas em que não podiam dar conta da experiência.

Estudar fora exige autoconhecimento e preparo. É um projeto que demanda dedicação, capacidade de lidar com frustrações e disposição para chegar a lugar novo e começar do zero.

Nem sempre o que se deseja ou se planejou acontece como previsto. Estudar fora é bacana, é verdade, e viver no exterior pode ser muito enriquecedor. Mas a correlação entre estudar fora, felicidade e sucesso não é obrigatória.

Cada indivíduo é diferente e isso deve ler levado muito a sério quando uma viagem internacional de estudos é organizada. O conhecimento que cada um tem de si mesmo é um fator fundamental para o sucesso desta empreitada. Não importa a idade.

Se você quer ter uma experiência internacional gratificante, comece por entender quem você é e como se relaciona com o ambiente à sua volta. Consegue ficar só por um tempo prolongado? O desconhecido te assusta ou te fascina? Gosta de viver em uma cidade grande ou prefere um lugar menor, mais acolhedor? Há limites para o desafio que quer viver? Porque quer estudar fora?

Há muitos anos atrás fui estudar em uma cidadezinha do meio-oeste americano chamada Champaign-Urbana. Ficava em Illinois, no interior dos Estados Unidos, um estado onde faz muito frio. Eu tinha 23 anos e nunca havia vivido em uma cidade tão pequena com um inverno rigoroso e muito prolongado. Foi uma experiência difícil e bastante penosa para mim. Eu sabia que estava em um campus universitário maravilhoso e que tinha tudo para ser feliz. No entanto, não consegui aproveitar a experiência e precisei fazer uma mudança de rota.

Fui sem saber para onde estava indo, sem pesquisar ou conversar com pessoas que tinham vivido essa experiência ou estudado naquela universidade. Fui sem saber do que eu não gostava e do quanto seria custoso para mim tentar transformar sal em açúcar. Não tinha maturidade para fazer o que estava fazendo. Autoconhecimento zero.

Aprender na marra nem sempre é bom ou necessário, especialmente se você pode fazer suas escolhas com calma e bastante informação. No entanto, o envolvimento com o processo é fundamental para que você possa definir qual experiência será boa para você.

Não tenho nenhuma intenção de desencorajar seus planos, ao contrário. Quero apenas sugerir  que entenda se esta é uma boa escolha para você, no detalhe. Prepare a sua viagem com muito cuidado e atenção. Não se jogue em um novo destino sem pensar. Afinal, você quer que a sua experiência internacional seja inesquecível, não é mesmo?

Andrea Tissenbaum, a Tissen, escreve sobre estudar fora e a experiência internacional. Também oferece assessoria em educação e carreiras internacionais.
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